O mais importante
O gelo derrete no whisky de qualidade que os amigos trouxeram faz dias, adocicado pelo licor de café e caramelo oferecido pelos pais da nossa filha por três meses no outono do ano que diz que acaba de findar. O tempo é cíclico e manifesta-se através das estações que os equinócios e os solstícios vão anunciando. Há muito que o sentimos, presos que estamos na imaginária linha que nos estica ao cúmulo do que sabemos serem limites insanos, mas apeitamo-nos, na mesma, às sobejamente celebradas efemérides da realidade corrente: precisamos dos abraços que nos aliviam e actualizam a comunidade. Sobram inúmeros confortos, demasiados até, para além daqueles que ousamos, com algum sucesso, questionar.
O alinhamento do programa de rádio online, que só sozinha ouço, revisita-me enquanto me alicia com sonoridades alheias as entranhas, para sempre, por isso, sedutoras; a mesa limpa de ancestral luz à esquerda e as prateleiras de promessas perfeitas, em volta, aguardam o meu esforço consequente. A favor da produtividade tenho um ordenado antecipado para um determinado trabalho artístico nunca antes remunerado, privilégio insuspeito - que espero ser à prova da mais fértil procrastinação. Começar o ano com intenções de produtividade brilhante não será de todo adequado às tréguas por que, claramente, clamam corpo, espírito e toda a natureza, mas trata-se, ainda assim, finalmente, de trabalho de dramaturgia com algumas das minhas pessoas preferidas. Encontrar soluções de ruptura como caminhar para a venda do terreno que nos ampliava os sonhos parece acertar, no entanto, o passo com a lucidez que os poderá, paradoxalmente, concretizar. Ou parte deles, sumo concreto e vital das ideias, pelo menos, que é o mais importante.
Lá fora pressente-se o desespero ardendo depressa, o meu ofício aqui é permanecer.



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