O pessoal é político*

Agora que a materialidade desesperada e desesperante do neo-fascismo deste aparente final dos tempos nos oferece sedutor misticismo também sob o signo do eco-feminismo contemporâneo - que tão pouco faz para erradicar as indústrias extrativistas do Norte global, pelo contrário, em boa parte apenas as segue alimentando, apaziguando consciências demasiado exaustas através da venda dos seus múltiplos produtos e da instituição de rituais vazios de intencionalidade efectiva, sem qualquer contacto com a maioria das mulheres, sujeitas ainda à violência, à pobreza e à ausência de infra-estruturas básicas que garantam a sua autonomia, para não falar das guerrilheiras pelo solo e pela água em territórios já desertificados, claramente servindo o propósito de deslocar a esmagadora responsabilidade de multinacionais hiper-poluentes e governos afins para a impotência frouxa do indivíduo de classe média - ou de um simpático pós-feminismo preocupadíssimo com questões de expressão individual do foro da moda ou da revitalização dos supostamente mais tradicionais papéis femininos esbatidos na luta pelo empoderamento a todos os níveis da igualdade, esquecidos vimos já da constatação que poderia ser óbvia, pelo menos desde os anos 90 do século passado, mas que ostensivamente não o é, de que o género é uma construção social e que o etnocentrismo europeu não serve toda e qualquer mulher do mundo.

Da mesma maneira que as bandas de punk feminista mais underground dos anos 70 foram fundamentais para o movimento Riot Grrrl quase duas décadas depois, este por ventura responsável, enquanto sub-cultura musical mais mediática e, sobretudo, activista, pela propagação do espírito crú do DIY no feminino, também o feminismo de segunda vaga (tão mal tratado, senão amordaçado, no início deste jovem século, em traços gerais um pouco por toda a academia do Norte do planeta) soube abrir caminho, e bem, para reclamar mais que o papel de groupie, um dia, espero, para todos os seres sencientes. Resta-me, talvez, no instante em que a machosfera me explode nas impensáveis trombas de meia idade, olhar com redobrada atençāo, talvez não ainda para as primeiras sufragistas, mas, seguramente, para essas intelectuais brancas de classe média, muitas vezes da escola francesa, a começar por Simone de Beauvoir. Dizia Beauvoir, na França onde apenas a partir de 1965 puderam as mulheres trabalhar sem autorização de maridos, no seu famosíssimo O Segundo Sexo (1949), no capítulo sobre a mulher casada, onde também se versa sobre a capacidade imprescindível à jovem fêmea solteira de morder a língua, que “Uma vez que o marido é o trabalhador produtivo, é ele quem vai além do interesse familiar para abraçar o da sociedade, abrindo caminho para o seu próprio futuro através da co-operação na construção do futuro colectivo: ele encarna a transcendência. A mulher está destinada à perpetuação da espécie e aos cuidados do lar — ou seja, à imanência.” [tradução livre a partir da versão inglesa de H.M. Parshley] Ou ainda “ O homem é chamado à acção; a sua vocação é produzir, lutar, criar, progredir, transcender-se em direção à totalidade do universo e ao infinito do futuro; mas o casamento tradicional não convida a mulher a transcender-se com ele; confina-a à imanência, encerra-a no círculo de si mesma. (…) entre as paredes da casa que ela deve gerir, ela encerrará o seu mundo;” e “(…) É o homem que actuará como intermediário entre a sua esposa, enquanto individualidade, e o universo; ele dotará a sua vida insignificante e contingente de valor humano. Obtendo na relação com a sua esposa a força para empreender, para agir, para lutar, é ele a justificação dela: ela só tem de colocar a sua existência nas mãos dele e ele dar-lhe-á sentido. (…) Rainha na sua colmeia, (…) seja uma cabana ou um castelo; representa a permanência e a separação do mundo.” [tradução e capítulo idênticos, sendo que mais haverá a dizer acerca do capítulo seguinte a respeito da maternidade].

As eco-feministas originais, com a premissa de que há diferenças culturais e biológicas entre os sexos, valorizando uma suposta intuição superior, empatia ou capacidade de cuidado inata ao feminino, que hoje se vê desembocar na espiritualidade tóxica, embora constituindo já reacção ao feminismo liberal e existencialista pela sua rejeição de papéis impostos, na luta por direitos iguais e, acima de tudo, pela liberdade individual, terão compreendido perfeitamente a relação entre a sua opressão e a da natureza, precisamente, no que toca a fertilidade. Como foi compreendendo o movimento, pelo menos até ao final do século, a falácia do progresso aliado à supremacia da tecnologia. E é também pelo regresso do feminino enquanto objecto idealizado, mudo, imutável e encerrado na manutenção de uma harmonia artificial porque todo o planeta vivo soluça agora, submerso que está num greenwashing, incontornavelmente, sagrado e mistificante.




* O Pessoal é Político, anos 60





Na década de 1970 muitas mulheres tinham-se colocado à frente de lutas contra os resíduos tóxicos, contra centrais nucleares e bases militares. O ecofeminismo tornou-se mais conhecido no contexto destes movimentos. A 1ª Conferência Ecofeminista “Mulheres e vida na terra” foi realizada em Março de 1980 em Amherst nos EUA, onde foi afirmado por uma das organizadoras – Ynestra King – que a devastação da Terra e dos seres vivos pelas grandes empresas e pelas ameaças nucleares das potências militares era um problema feminista. Tratava-se de identificar estas ameaças com a mentalidade masculina que também queria negar às mulheres o seu direito ao corpo e à sexualidade. Estabelecia-se, desta forma, uma relação entre a violência patriarcal contra as mulheres e a Natureza.



Nos dias que se seguiram à morte do meu pai, com quem partilhava um inexplicável apego a material de escritório e artigos de papelaria, encontrei-me com os meus irmãos na casa que alugara e que teríamos de esvaziar rapidamente. Fui eu a descer as escadas do prédio com a roupa que lhe seria vestida a enterrar para pedir à senhora que lhe passava a roupa a ferro que o fizesse uma última vez. Fui eu, com o meu irmão mais novo, a esvaziar os armários demasiado cheios da cozinha, as gavetas do quarto, os dossiers repletos de fotocópias; as idas ao lixo, a limpeza da gordura do fogão e dos azulejos, do sarro da banheira  e da retrete, as marcas no espelho e os pêlos no lavatório. De resto, a renúncia das dívidas e as partilhas, ou o seu contrário, de livros e objectos: quis ficar com uma caneta de madeira e aparo de metal que não soube montar. E a pergunta do meu segundo irmão mais velho 
para que queres isso se nem sequer tens afinidade técnica?

Gosto de cozinhar devagarinho com legumes e ervas e frutos e flores da horta, gosto de toalhas bordadas e de guardanapos de pano. Gosto da porcelana e dos faqueiros antigos da minha avó, não gosto de catedrais de consumo nem de múltiplas escolhas da mesma merda fora de época, 

repugna-me a ideia de  ser melhor tudo o que novidade será.

Detesto fazer limpezas, mas vou fazendo. Paralisa-me a burocracia e vou adiando. 

Aprecio os pêlos das minhas axilas e o grisalho dos meus cabelos, incomoda-me a pilosidade 

nas pernas e nas virilhas.

Ainda pinto as unhas de verniz tóxico, raramente contribuo para a indústria de moda ultra-rápida.

Desloco-me de comboio e de autocarro. Há tempos e caminhos por onde só andam carros. 

Às vezes ando de avião.

Não como polvo, mas como atum, bacalhau, sardinha, cavala, dourada e robalo. 

Às vezes como salmão.

Sei escutar e  e sei escrever, não quero ser secretária.

Emocionam-me todas as criaturas que inspiram cuidado.

Seria precisa a aldeia de pessoas capazes de distribuir equitativamente  

os papéis de cuidar, criar e educar.

Reivindico a cada minuto as minhas prioridades e isto nāo acaba nunca.

Não há qualquer ganho na dependência, a autonomia exclusivamente dentro de portas é ficção.

Sou pela transparência e pela lealdade, não sou uma monogâmica convicta

nem sempre, nem para sempre.

É nas zonas de baixo contraste que poderíamos evoluir.

São os claros claríssimos e os escuros escuríssimos que nos sequestram, atordoam e esmorecem. 


Aspiro ao ânimo livre.


https://youtu.be/SqiFYcKEhxs?is=z48dQF6poHibkaUY


O silêncio é a morte

E, se te calas, morres

E, se falas, morres

Por isso, fala e morre

Tahar Djaout



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