Ainda há uns dias discutia contra-sítios com o meu amigo que diz que o futuro passa por formas radicais de solidariedade (parece que em breve nos vem visitar ao abrigo de um projecto de foto performance) e eis senão quando me deparo com a mesmíssima questão do refúgio que se pode estabelecer, urgente, absoluta e necessariamente, por oposição à indiferença e inautenticidade que a era da tecnologia produz enquanto realidade - toda ela igual, obrigando ao desmantelar sistemático de quaisquer ligações de significado, empurrando-nos para o auto-exílio metafísico - para reclamar do espaço vital de liberdade, pensamento e criação numa táctica de resistência activa à lógica do niilismo contemporâneo em que a angústia grassa. É mais ou menos isto que diz José Tolentino de Mendonça no seu prefácio ao delicioso livrinho de Josep Maria ESQUIROL, A Resistência Íntima [Tradução de Jorge Melícias, Edições 70, 2024], a cujas páginas me agarrei ontem com sofreguidão (e ao abrigo da canícula no profundo fresco da minha margem da ribeira, onde palavras como biodiversidade e regeneração puderam já constituir uma materialidade muito concreta) em plena procrastinação do exercício de imaginação e síntese de particular sociedade futura.
“(…) resistência íntima é o nome de uma experiência, própria da região da proximidade, região que não é visita de um dia, mas habitual permanência. Porém, hoje custa permanecer nela. A proximidade não se mede em metros nem em centímetros. O seu oposto não é a distância, mas antes a ubíqua monocromia do mundo tecnificado.”
[in cap. VI Cuidar de nós sem nos convertermos em narcisos, p. 85]
A clareza que só a travessia do luto proporciona trouxe-nos aqui. O nosso ajuntamento reside, antes de mais, na defesa implacável da razão, da equidade e da prevalência dos sentidos e do trabalho manual contra o artifício de um mundo que se ergue através da implementação desregulada de feudos políticos exclusivos alimentando-se das ondas de choque, da escassez e do colapso do planeta fustigado por um nível de consumo tal, imprescindível, na sua escalada, como fatal, à existência humana, que não só desistiu já da ideia de democracia, como depende do saque total da terra e de todos os recursos que armazena (solo, minerais, ar, água) para sobreviver à mesma civilização que assim aniquila.
O vazio assentara há muito em cada possibilidade de sentido comunal quando chegámos, toda a necessidade do indivíduo se quisera ver preenchida através da sua própria expressão virtual. Permanecemos enquanto a derradeira desintegração de todos os sistemas éticos fundamentais dava já vertiginosamente lugar à maquinaria das arcas, dos bunkers e das eco-fortalezas dos eleitos. Há muito que a vida nas cidades se programara para a obsolescência. Resistimos nas orlas em perigo preservando os rebanhos e as sementes originais, e mesmo quando nos açambarcam o pouco de que precisamos, não cedemos às correntes de desespero. Só assim podemos enfrentar o fim, numa repetição sem tréguas do cuidado que a abundância do suficiente e nunca do crescimento infinito requer. Sempre o cuidado, nunca o domínio, para além da natureza humana que sempre acaba por se manifestar devolvendo-nos, de cada vez, primeiro à competição sem dó nem piedade, depois ao vital acto de reagrupar.
Ficaremos esquecidos a reter humidade nas margens de todas as últimas espécies.
To move forward with focus, we must first understand this simple fact: we are up against an ideology that has given up not only on the premise and promise of liberal democracy but on the livability of our shared world – on its beauty, on its people, on our children, on other species. The forces we are up against have made peace with mass death. They are treasonous to this world and its human and non-human inhabitants.
Second, we counter their apocalyptic narratives with a far better story about how to survive the hard times ahead without leaving anyone behind. A story capable of draining end times fascism of its gothic power and galvanizing a movement ready to put it all on the line for our collective survival. A story not of end times, but of better times; not of separation and supremacy, but of interdependence and belonging; not of escaping, but staying put and staying faithful to the troubled earthly reality in which we are enmeshed and bound.
This basic sentiment, of course, is not new. It is central to Indigenous cosmologies, and it lies at the heart of animism. Go back far enough and every culture and faith has its own tradition of respecting the sanctity of here, and not searching for Zion in an elusive ever-distant promised land.
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