A sétima onda de calor
Creio ter sido em meandros da sétima onda de calor quando registei a permanência do horário activo estabelecido, sem férias, entre as cinco e as quatro, o que perfaz um total de onze horas chamadas úteis. Horas estas, com mais ou menos letárgica dedicação, distribuídas a comer torradas e a beber café, fumar cigarros, fazer uma máquina de roupa, pô-la a secar ou tirá-la da corda, varrer o chāo, pensar em lavá-lo, fazer um bolo e preparar húmus, mas ir despejar o lixo ou tratar do canteiro na estação, passear com a cadela e soltar os animais, pousar na cadeira de praia com um livro e um caderno e largá-los de seguida para proteger esta e aquela planta, regar duas partes da quinta, limpar o galinheiro de penas e caca, despejar e encher a banheira dos patos, cortar melancia fresca, colher a fruta madura, guardar todos em segurança e recolher antes que os mosquitos ataquem, entre outras modalidades do cuidar. A aranha do arco à entrada chama-se Anastásia, o aranhiço da casa de banho foi denominado Mr. Toddles e o besnico do bar não tem, ainda, nome. Há sempre jantares, regadores e secadores de sementes, as portas e as janelas, o livro e o caderno na mala, os outros no pó da mesa de apoio à madrugada. As madrugadas têm sido outras, revestidas que andam de suor e frustração, rendidas à cacofonia de banalidades nos múltiplos sofás com microfones ampliando a submissão. A super lua, o eclipse e as chuvas de estrelas coabitando com os satélites a capitalizar o ar e todas as guerras a continuar em força e velocidade a par do mais perverso consumismo.
Poder olhar o céu sentada nos degraus do escritório, acender um charro ou uma vela e pôr música a tocar.



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