Escadas de pedra

Na esquina das ruínas do Magriço, súbitas escadas de pedra descendente debaixo de água, deparei-me com um monstro de mudo rugido escancarado cujos destroços de dentes ensanguentados me despertou de chofre. Ali terei comido uma vez em alegre comunhão alheia a convite olvidado nas quatro décadas passadas, parece-me, mas é o caminho para a dança-jazz ao fim do dia, precisamente de Norte a Sul da Avenida das Linhas de Torres rente ao trânsito para o estádio de Alvalade, curvando à direita, que ficou gravado no imediatismo que a repetição sempre opera. Haveria uma máquina de tabaco, seguramente alguns maços de SG Ventil para abrir nas bancadas com a Catarina quando começou a escassear o interesse em geral e nas aulas em particular. Era o café-restaurante a abarrotar antes e depois dos jogos e dos concertos onde cabiam grandes grupos de familiares ou amigos, nada de que tivesse participado por aí além no Lumiar. Desconcertantes são os monstrengos que se põem a espreitar nos escombros esbugalhados por que passámos sem registar permanência até que a sua aparição se deixe revelar. Existia um pequeno centro comercial mais adiante, talvez se chamasse Stromp. Creio ter lá estado numa loja de discos antes ainda, as capas entre dedos, o meu pai em redor proporcionando surpresa, prazer, coisas da adrenalina. Nisto acabo por me lembrar.

Abri a janela para o prado, o desejo de húmus e couve roxa fininha, o café de cafeteira no telheiro de cana ao sol sem relva ou torradas com fiambre junto ao leitinho quente com uma colher de café solúvel. Entretanto, deixei também de compreender o deslizar rente ao chão de uma piscina privada; respiro barro, palha e bosta. Às vezes pedra e cimento. Guardo uma bandeja de prata para o gim tónico hipotético, tornam-se fartas as sementes literais sem promessas. Temos saramagos, camomila, salamandras pretas e sapos gordos, vai fazendo calorzinho, a água translúcida na ribeira corre. À tarde, descemos juntos até lá: eu colhi ramos e entretive a cadela, ele cavou a meu pedido um pedaço de terra fértil - para crescer verde nos pés da margem na parte funda.

O vento ainda sopra e não estamos livres de tempestades.


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