Por cima do tapete
Eu ainda sou do tempo do homem da máquina de escrever agarrado a copos de whisky com soda e Gressinos, antes do jantar, esgrimindo contratos sobre cada fio da fibra que me compõe. A indústria era nacional, imperativo da época, à excepção dos carros que se iam buscar à Alemanha; a senhora deslocara-se no autocarro 36 à baixa da cidade de Lisboa para adquirir uma peça de 120 cm de diâmetro da mais fina tapeçaria quente, escarlate com floral e arabescos de prata. As franjas a condizer seriam aplicadas pela costureira, numa quarta feira à tarde, na mais corriqueira mesa da cozinha com vista para o supermercado Europa, como era habitual, para suspender a um palmo do chão. O crochet branco bordara a senhora, regularmente lavado à mão da empregada (Juliana, Mariana ou Ivana) com sabão azul, mais tarde detergente para roupa delicada. Por baixo um plástico rafeiro, mas invisível, de protecção. Eu ia a banhos em Abril, no final da época, encerrada até Outubro numa das arcas de cânfora resgatadas em navio pioneiro aquando da grande debandada.
À minha mesa, ao início, cabia sempre um vaso de cerâmica discreta com um feto, não fora o ofício da já referida máquina que, desde logo, inaugurara um põe e tira que em nada se adequava à pompa com que se tinha denominado a assoalhada: o escritório. Em perfeito silêncio durante o dia, o estore aberto até meio, pelas 11 horas, para deixar entrar a luz através das cortinas brancas de linho sem queimar o creme da alcatifa, faria as suas vezes em pleno ao fim da tarde, em rotação com a saleta ao serão. Em breve estrear-se-ia a telenovela Gabriela, antecipando já o tresloucado corrupio de tarefas, brincadeiras, devaneios, lanches, visitas, sestas, jantares, segredos, atritos e até dormidas, a partir da década que se seguira. Isto para não falar das longas sessões semanais de limpeza que toda esta actividade acarretava. Prescindindo, com frequência, da disposição axial, era a mesa, de noite, encostada ao vidro dos janelões de correr para a varanda. Uma vez apagada a televisão, dava lugar a, pelo menos, meio corpo estendido do divã de valentes molas e superior estofo cinzento, recolhido apenas depois de erguido o estore, corridas as cortinas, recolocado o vaso, aberta a porta, de volta, enfim, ao centro da expectativa a que a incerteza das façanhas da família, pese embora a presciente constância da senhora, me destinara.
Que reclamasse conforto inesgotável a braseira com duas resistências assentes no interior da estrutura de madeira - enquanto comportáveis os custos da electricidade -, ter-me-á toldado o anúncio a evidente ausência de estufas outras, constituindo, por ventura, elaborados suportes aveludados para registos genealógicos? São as produções de uma era que atestam do seu esplendor ou acolhê-lo-ão antes as atrocidades que as proporcionam? No melhor pano cai a nódoa. Em mim pousaram todos os resquícios do deslustre ao longo de meio século debaixo de um resguardo.
A camilha sou eu, sou eu a herança. No meu jubileu chego-me à lareira alentejana de uma cozinha rústica numa bacia hidrográfica em risco de cheias.



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